Em breve (a partir do próximo mês), os EUA podem começar a aplicar algum tipo de tarifa sobre a carne bovina in natura australiana exportada para lá. É o que acreditam alguns analistas ouvidos pelo portal beefcentral.com, um respeitado canal de informação sobre o dia a dia do setor pecuário de corte na Austrália.
A carne bovina do Brasil, forte concorrente da Austrália no comércio internacional da commodity, é taxada anualmente em 26,4% pelos EUA logo após o preenchimento de uma cota de 65.000 toneladas (disputada com outros países).
Em 2024, o Brasil exportou cerca de 230.000 toneladas de carne bovina aos EUA, o que significa que 71% desse total foi submetido à tarifa de 26,4%.
Por sua vez, até o momento, a Austrália mantém um acordo de Livre Comércio com os EUA, o que garante a não cobrança de tarifas sobre a carne bovina in natura australiana importada pelos norte-americanos.
O curioso é que, desde 2003, as próprias indústrias frigoríficas dos EUA estão proibidas de exportar carne bovina in natura para a Austrália – essa restrição é baseada em rigorosas exigências de biossegurança impostas pelo governo australiano.
Nos últimos anos, representantes do setor de carne dos EUA têm lutado, sem sucesso, para derrubar essa “barreira não-tarifária” australiana.
Por isso, claramente, esse antigo impasse entre os dois países pode pesar na decisão atual do governo Trump em aplicar algum tipo de tarifa sobre a carne bovina da Austrália, acreditam os especialistas do setor.
Em reportagem do portal da Beef Central, o analista Ripley Atkinson, da StoneX, sugeriu, sem ressalvas, que “os EUA vão aplicar algum tipo de tarifa sobre a carne vermelha australiana exportada para os EUA, incluindo carne bovina, de cordeiro, de carneiro e de cabra”.
“Há muita incerteza no mercado atualmente e os mercados não gostam de incertezas”, disse ele.
No texto do site australiano, o analista Atkinson também levanta a possibilidade de uma taxa adicional dos EUA (além da tarifa de 26,4% já aplicada) sobre a carne bovina brasileira.
“Essa decisão (sobre uma suposta nova tarifa sobre a carne bovina exportada pelo Brasil) será importante, pois determinará o nível de competitividade (em relação ao produto brasileiro) da carne bovina australiana no mercado norte-americano”, disse ele.
No mesmo artigo da Beef Central, o analista Matt Dalgleish afirmou que “um nível tarifário de 2-10% (aplicado pelos EUA sobre a proteína australiana) provavelmente teria pouco impacto real ao setor de exportação, mas algo como 15% (ou mais) poderia prejudicar o comércio entre os dois países”.
Segundo análise da Beef Central, “houve uma mudança clara de opinião (dos analistas) nos últimos sete dias sobre a probabilidade de tarifas serem aplicadas (sobre as exportações de carne bovina australiana para os EUA) a partir da próxima rodada de medidas tarifárias, iniciada em 2 de abril/25″.
“Há uma semana, analistas e fontes comerciais acreditavam que uma imposição de tarifas sobre a carne bovina australiana seria improvável, com base na atual situação de fornecimento doméstico de carne bovina dos EUA, mas isso parece ter mudado”, relembra o portal.
Tarifa de 2-8% parece mais provável
O Australian Financial Review (um dos principais jornais de negócios e finanças locais) publicou um artigo especulando sobre o impacto das tarifas na Austrália, citando o consultor econômico sênior do US Studies Centre, John Kunkel, relata o Beef Central.
O texto sugere que a Austrália pode enfrentar uma tarifa potencial entre 2% e 8% sobre os US$ 30 bilhões em exportações vendidas anualmente para os EUA, incluindo itens importantes como carne bovina e produtos farmacêuticos.
“Trata-se de uma tarifa relativamente baixa se comparada com as taxas de 25%-100% que os EUA ameaçaram impor aos produtos da China, Canadá, México e Europa”, diz o artigo.
De acordo com o texto da Beef Central, nas últimas semanas, grupos de lobby mais radicais da carne bovina dos EUA, como o R-Calf, têm se mostrado ativos em seu apoio à proteção tarifária para a carne bovina dos EUA.
Fontes governamentais e analistas comerciais dos EUA veem a falta de acesso da carne bovina dos EUA ao mercado australiano como uma forma de barreira não-tarifária.
Por sua vez, ressaltam os analistas norte-americanos, a Austrália continua a insistir que qualquer decisão de acesso ao seu mercado de carnes deve seguir linhas científicas e deve incluir equivalência com o próprio sistema de rastreabilidade de seu rebanho de bovinos.
No ano passado, reforça o artigo da Beef Central, a Austrália foi alvo de críticas em relatório de representantes comerciais dos EUA pela aplicação de restrições rigorosas de biossegurança que bloqueiam os embarques norte-americanos de carne bovina, maçãs, peras, carne de porco e aves.