Exportadores deixam de ganhar US$ 6 bi com queda do dólar em 2025, mostra cálculo
O recente recuo na cotação do dólar em relação ao real acendeu um alerta sobre o efeito do câmbio na receita de exportação dos frigoríficos. Desde o início de 2025, a moeda americana caiu pouco mais de 6%, fazendo com que as exportadoras de carnes deixassem de ganhar, em média, R$ 5,9 bilhões só em função da variação cambial. O que salva o setor nesse cenário é a demanda, que está muito aquecida.
O cálculo foi feito pela RB Investimentos para o Valor. É uma média ponderada que considera fatores como a variação da moeda americana comparada ao real, o preço da tonelada exportada, os custos dos frigoríficos com o boi, aves e suínos, a exposição que as companhias têm no mercado externo, entre outros.
“Esse número pode mudar de acordo com a estratégia adotada por cada empresa. Elas podem se planejar para mitigar esses riscos”, afirma Felipe Neri, analista da RB Investimentos.
O estrategista-chefe da RB, Gustavo Cruz, ressalta que os investidores também costumam fazer uma correlação entre o comportamento do dólar e as apostas nas ações das empresas do setor de carnes na B3.
“Hoje em dia há uma relação muito grande entre o câmbio e o desempenho dos frigoríficos na bolsa. Sabendo que existe um impacto do dólar sobre o faturamento das exportações, os investimentos nos papéis dos frigoríficos avançam quando a moeda sobe, e quando o dólar cai acontece o contrário”, diz Cruz.
“É uma simplificação que os mercados fazem sabendo que existe essa exposição do setor às vendas no mercado externo”, acrescenta o especialista.
Dados compilados pelo Valor Data mostram que o dólar acumulou queda de 6,26% em 2025 até a última sexta-feira (7/2). Apesar das especificidades de cada frigorífico, as ações de todos os listados na B3 também recuaram nesse período.
Os papéis ON da Marfrig caíram 12,86% e os de sua controlada BRF baixaram ainda mais, 18,61% neste ano (até o dia 7). As ações ON da Minerva perderam 12,77%, enquanto as da JBS registraram queda de 4,79%. Procuradas, as empresas não comentaram o assunto.
Se por um lado o dólar joga contra o setor de carnes atualmente, por outro, a demanda joga a favor. A firme busca pelas carnes do Brasil e a redução de produção em países-chave, como os Estados Unidos na área de bovinos, favorecem a receita dos exportadores do setor. Prova disso é que as exportações das carnes bovina, suína e de frango foram recorde em janeiro deste ano.
“A questão cambial é muito importante, mas o cenário, em geral, é benigno no setor de proteínas porque a demanda está muito sólida”, afirma o head de Agro, Alimentos e Bebidas da XP, Leonardo Alencar.
De acordo com o analista, o recuo do dólar faz com que o produto brasileiro tenha perda de competitividade, porém, a demanda é consistente.
Outro sinal que evidencia a força da demanda é a exportação brasileira de carne bovina in natura para os EUA que, ao longo de 17 dias de janeiro, consumiu toda a cota de 65 mil toneladas de embarque sem tarifa para o ano de 2025, de acordo com o especialista da XP. A partir de então, os envios de carne seguirão com tarifa, e ainda serão vantajosos para os fornecedores.
“Usando isso como termômetro vemos que a demanda dos EUA é muito forte, sobretudo por carne magra do Brasil. A China bateu recorde de importação no ano passado e, no Sudeste Asiático, alguns países despontam na compra de suínos, como as Filipinas”, exemplifica. “É um cenário global favorável aos preços das proteínas”, completa.
Impacto na receita
Na indústria, porém, há também a visão de que a demanda não será suficiente para compensar a perda com câmbio para todas as empresas. Um executivo do setor afirma, em condição de anonimato, que a receita em dólar proveniente da exportação será impactada e que não há ainda movimento de aumento de preço de exportação que compense essa perda.
Esse executivo ressalta que, de fato, algumas companhias já se posicionaram e protegeram seus fluxos comerciais com hedge quando o dólar superou os R$ 6, “mas, olhando estruturalmente, o movimento de câmbio tem efeito direto na receita”, enfatiza.
No balanço entre efeitos do câmbio e os volumes de vendas, os frigoríficos que ficarem com as margens mais apertadas com a exportação de carne podem influenciar o nível do preço pago pelo boi gordo.
Caio Toledo, consultor em gerenciamento de risco da StoneX, pondera que a formação de preço do gado bovino de corte também é composta pela oferta de animais e o comportamento da demanda interna por carne bovina.
“Muitas vezes a demanda doméstica é suficiente para que não haja interferência no preço do boi”, afirma o especialista.
Em geral, 70% da produção nacional de carne bovina fica no mercado interno e o restante é direcionado para a exportação.